Rodrigo Gonçalves Pimentel, filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel e advogado, observa que poucas heranças resistem ao mesmo erro que atravessa gerações de famílias empresárias: distribuir o patrimônio antes de decidir quem vai administrá-lo. O resultado é previsível. A ausência de uma estrutura que separe propriedade e gestão transforma qualquer divergência familiar em ameaça à continuidade do negócio. Basta uma discordância entre irmãos. O inventário judicial, lento e caro, faz o resto: consome anos de disputa e uma fatia relevante do que levou décadas para ser construído.
Nem toda holding cumpre essa função, no entanto. Criar a empresa no papel resolve pouco se as regras de convivência entre os sócios continuarem indefinidas. É aí que a maioria dos planejamentos sucessórios trava: no contrato bem redigido que ninguém sabe aplicar na prática. Quando a estrutura jurídica avança sem que a governança familiar acompanhe o mesmo ritmo, o risco de conflito não desaparece, apenas migra para dentro da própria holding.
Por que a holding familiar pesa menos no bolso do que o patrimônio na pessoa física?
Uma família que recebe R$ 40 mil de aluguel por mês, na pessoa física, pode perder quase um terço desse valor entre impostos e retenções diversas. Na pessoa jurídica, sob o regime correto, essa conta muda. Não é sonegação, é organização. A legislação prevê caminhos distintos de tributação para cada tipo de estrutura, e escolher o caminho certo é o que separa quem economiza de quem paga mais do que deveria. Como aponta Rodrigo Gonçalves Pimentel, esse é um direito de quem deseja preservar o crescimento do patrimônio ao longo de gerações.
A holding familiar paga menos imposto sobre aluguel do que pessoa física? Sim, na maioria dos casos. A alíquota efetiva sobre rendimentos de aluguéis costuma ser menor na pessoa jurídica, dependendo do regime tributário escolhido, mas a vantagem real depende da estrutura societária adotada e de orientação especializada na escolha do regime.

Além da economia direta, a estrutura societária abre acesso a linhas de crédito e modalidades de investimento fora do alcance da pessoa física. Bancos avaliam o balanço de uma empresa de forma diferente do salário ou da renda pessoal de um indivíduo. Um patrimônio bem demonstrado em uma holding tem mais poder de negociação do que o mesmo patrimônio disperso em nomes individuais. É esse fôlego financeiro que permite à família reinvestir com mais liberdade, sem depender de vender ativos para financiar a próxima etapa do plano.
O que acontece com o patrimônio quando um herdeiro se divorcia ou contrai uma dívida?
Um sócio se divorcia e, da noite para o dia, o ex-cônjuge tem direito a metade das quotas de uma empresa que nunca administrou. Esse cenário, comum em famílias que não anteciparam a partilha, pode travar decisões estratégicas por anos. Cláusulas de incomunicabilidade e impenhorabilidade nas doações de quotas evitam exatamente esse tipo de situação. Para Rodrigo Gonçalves Pimentel, a separação patrimonial legítima impede que problemas pessoais dos sucessores, como divórcios, dívidas ou processos judiciais, atinjam o patrimônio que sustenta toda a família.
Mas blindar o patrimônio contra riscos externos resolve apenas parte do problema. De que serve proteger uma fortuna que os herdeiros não sabem administrar? A resposta está na preparação, não apenas na proteção. Quando os sucessores participam das decisões desde jovens, em conselhos de família ou reuniões formais, a transição de comando deixa de ser um salto no vazio. Muitas holdings bem redigidas juridicamente fracassam não pelo contrato, mas porque ninguém preparou quem viria depois.
Como transformar herdeiros em administradores antes da sucessão acontecer?
A criação de um conselho de família dentro da holding funciona como escola prática. Ali, os futuros sócios discutem investimentos, aprendem a ler um balanço e enfrentam divergências antes que elas apareçam em um momento de crise real. Como destaca Rodrigo Gonçalves Pimentel, a capacitação dos sucessores é tão relevante quanto a redação das cláusulas que protegem o capital, porque não existe estrutura jurídica capaz de compensar a falta de preparo de quem vai administrá-la.
Falta de preparo custa caro, e o custo nem sempre é financeiro. Sociedades que cresceram ao lado de fundadores carismáticos costumam desmoronar quando a nova geração assume sem ter absorvido os mesmos critérios de decisão. A solução não é complexa: começar cedo, formalizar processos e tratar a educação patrimonial como parte do plano, não como um extra opcional.
O que faz um protocolo familiar durar mais que os fundadores que o escreveram?
Regras claras sobre como as decisões serão tomadas, quem entra na gestão e como os conflitos serão resolvidos formam a espinha dorsal de qualquer protocolo familiar sólido. Sem esses critérios definidos, cada geração reescreve as regras do jogo à sua maneira, e a empresa perde a identidade que a fez durar. A meritocracia, quando bem aplicada dentro da holding, substitui o favoritismo por competência técnica real. Isso preserva a saúde financeira do grupo justamente nos períodos em que ela é mais testada: nas crises.
A atualização constante dessas regras também importa. Auditorias externas, tecnologia de controle patrimonial e abertura para novos formatos de gestão evitam que o protocolo familiar vire um documento engessado, distante da realidade do negócio. Legado, aqui, não é sinônimo de imutabilidade. É a capacidade de manter os princípios fundadores enquanto os métodos se adaptam ao seu tempo.
O que sobrevive numa família depois que o dinheiro já foi resolvido?
O dinheiro, sozinho, nunca é a parte mais difícil de uma sucessão. Poucas famílias entendem isso a tempo. O que resiste ao tempo é a confiança entre quem recebe e quem construiu, e essa confiança se constrói antes da assinatura de qualquer contrato. Rodrigo Gonçalves Pimentel reflete que o maior retorno de uma estrutura sucessória bem-feita não aparece no balanço. Aparece na capacidade da família de continuar se falando depois que o patriarca não está mais na sala de reuniões. Talvez seja esse o verdadeiro teste de qualquer legado: não o quanto ele vale, mas o quanto ele resiste ao silêncio de quem um dia o criou.