Prefeitura já utiliza recurso de IA em comunicação da Guarda Municipal, enquanto tecnologia abre espaço para novas aplicações no atendimento à população.
A inteligência artificial começa a deixar de ser uma tecnologia associada apenas a empresas e aplicativos para aparecer também em serviços que fazem parte da rotina do cidadão. Em Guarulhos, um exemplo concreto surgiu na área de segurança pública: a Prefeitura lançou, em julho, uma campanha para explicar o funcionamento da Central 153 da Guarda Civil Municipal utilizando um personagem virtual produzido com recursos de inteligência artificial. O “Azulzinho” foi criado para apresentar de maneira simples quando o morador deve procurar a Guarda e quais situações podem ser comunicadas pelo telefone 153. A iniciativa chama atenção não apenas pelo formato da campanha, mas pelo que ela revela sobre a entrada da IA na comunicação entre poder público e população.
A dúvida que surge agora é mais ampla: até onde a inteligência artificial pode ser usada para melhorar os serviços públicos de Guarulhos sem substituir o atendimento humano? A resposta passa por áreas como comunicação, análise de informações, mobilidade, saúde, educação, segurança e atendimento digital. Ao mesmo tempo, quanto maior o uso da tecnologia, mais importantes se tornam questões como privacidade, transparência, segurança dos dados e supervisão humana.
O primeiro passo já aparece no atendimento e na comunicação com o morador
A experiência da Central 153 mostra uma aplicação relativamente simples da inteligência artificial, mas com uma finalidade prática. Segundo informações divulgadas sobre a campanha, o personagem virtual foi desenvolvido com recursos de IA para orientar a população sobre as atribuições da Guarda Civil Municipal e facilitar o entendimento sobre quando acionar o serviço. A iniciativa também foi acompanhada pela criação de uma página específica no portal municipal, reunindo as principais informações em um único ambiente digital.
Esse tipo de utilização pode parecer diferente de sistemas de IA capazes de analisar grandes volumes de dados, mas possui uma característica importante: aproxima uma tecnologia complexa de uma necessidade cotidiana. Em uma cidade populosa como Guarulhos, parte dos moradores pode não saber exatamente qual serviço público procurar diante de determinado problema. Uma ferramenta digital que explique procedimentos, documentos necessários, telefones e canais de atendimento pode reduzir dúvidas e encaminhar o cidadão ao setor responsável, desde que as informações estejam atualizadas e sejam apresentadas de maneira acessível.
A própria Central 153 demonstra a dimensão do desafio. De acordo com os dados divulgados pela Prefeitura, o serviço recebeu 63.556 ligações em 2025, acima das 54.917 registradas em 2024. Até 15 de julho de 2026, já haviam sido contabilizadas 30.300 ligações, com média de aproximadamente 5.500 atendimentos mensais. Esses números ajudam a entender por que ferramentas digitais de orientação podem ser úteis: quanto maior o volume de solicitações, maior a necessidade de organizar informações antes que elas cheguem aos profissionais responsáveis pelo atendimento.
Isso não significa, entretanto, que um personagem virtual ou chatbot possa substituir a Guarda Municipal. A IA pode explicar procedimentos, direcionar o usuário e responder dúvidas simples, mas ocorrências de segurança exigem avaliação humana, protocolos e atuação das equipes competentes. A tecnologia funciona melhor como uma camada de apoio ao serviço público, e não como substituta automática de profissionais que precisam tomar decisões diante de situações reais.
Onde a inteligência artificial pode aparecer em Guarulhos nos próximos anos
Depois da comunicação pública, uma das possibilidades mais relevantes está na organização de informações. Órgãos municipais produzem diariamente grandes volumes de dados relacionados a saúde, educação, trânsito, zeladoria, atendimento ao cidadão e segurança. Sistemas de inteligência artificial podem, em determinadas circunstâncias, ajudar servidores a identificar padrões, classificar solicitações e localizar informações com mais rapidez. Isso poderia facilitar o trabalho interno e permitir que equipes dediquem mais tempo às situações que exigem avaliação individual.
Na mobilidade urbana, por exemplo, ferramentas de análise de dados podem auxiliar na identificação de horários e locais com maior concentração de congestionamentos, ocorrências ou demandas de transporte. Em serviços urbanos, algoritmos podem ajudar a organizar solicitações relacionadas a iluminação, limpeza, manutenção e infraestrutura. Na educação, sistemas digitais podem apoiar tarefas administrativas e facilitar o acesso de famílias a informações sobre matrícula, documentos, calendário e serviços disponíveis. Nenhuma dessas aplicações elimina a necessidade de servidores, mas pode reduzir tarefas repetitivas.
A área da saúde também apresenta possibilidades, embora exija cuidados ainda maiores. Sistemas de IA podem ser utilizados para organizar informações, apoiar atividades administrativas e melhorar fluxos de atendimento, mas decisões relacionadas ao diagnóstico, tratamento ou encaminhamento de pacientes precisam permanecer submetidas aos profissionais responsáveis e às normas aplicáveis. Quanto mais sensível for o dado processado, maior precisa ser a preocupação com segurança, acesso autorizado e finalidade de uso.
Guarulhos também possui iniciativas ligadas ao ecossistema de inovação que ajudam a criar um ambiente para novas soluções tecnológicas. Em 2026, o Centro de Inovação Tecnológica do Eniac passou a integrar o grupo de centros validados pelo Governo do Estado de São Paulo, colocando uma instituição instalada na cidade dentro de uma rede estadual voltada à inovação. Além disso, a Prefeitura promoveu em abril uma Maratona de Inovação e Tecnologia, mostrando que a discussão tecnológica local não está restrita ao uso de ferramentas prontas, mas também envolve formação e desenvolvimento de soluções.
Essa combinação pode ser importante para o futuro do município. Uma cidade que utiliza tecnologia em serviços públicos e, ao mesmo tempo, estimula instituições de ensino e inovação cria condições para que problemas locais sejam transformados em projetos tecnológicos. Para o morador, o resultado esperado não deveria ser simplesmente “ter mais inteligência artificial”, mas conseguir acessar serviços com menos burocracia, encontrar informações com maior facilidade e receber respostas mais rápidas quando a situação permitir.
Privacidade, transparência e supervisão serão decisivas para a tecnologia funcionar
O avanço da inteligência artificial no poder público também cria perguntas que não podem ser tratadas apenas como questões técnicas. Quando um sistema utiliza informações de cidadãos, é necessário saber quais dados são coletados, para qual finalidade, por quanto tempo podem ser armazenados e quem pode acessá-los. Em serviços públicos, essas preocupações ganham peso porque o cidadão nem sempre tem liberdade para simplesmente deixar de utilizar determinado serviço ou canal.
Outro ponto é a transparência. Se uma ferramenta automatizada orientar o cidadão, o usuário precisa conseguir identificar quando está interagindo com um sistema tecnológico e saber como procurar atendimento humano quando a resposta não resolver seu problema. A inteligência artificial também pode produzir respostas incorretas ou incompletas, razão pela qual sistemas utilizados em serviços públicos precisam ter mecanismos de revisão e atualização.
A experiência da Central 153 oferece justamente uma pista sobre um modelo mais prudente: usar a tecnologia para explicar e facilitar o acesso, enquanto a responsabilidade operacional permanece com a estrutura pública. A campanha do “Azulzinho” não transformou a IA em autoridade para decidir ocorrências; ela foi utilizada como instrumento de comunicação. Esse tipo de aplicação reduz a distância entre inovação tecnológica e necessidades concretas do cidadão sem eliminar a participação dos profissionais responsáveis pelo serviço.
Para Guarulhos, o próximo desafio será transformar iniciativas pontuais em uma estratégia digital capaz de produzir ganhos reais para a população. Isso envolve capacitação de servidores, integração entre sistemas, segurança da informação, acessibilidade e avaliação dos resultados. Também será importante verificar se uma nova tecnologia realmente melhora o atendimento ou apenas muda a aparência do processo.
A inteligência artificial, portanto, pode ganhar espaço na administração pública de Guarulhos, mas o impacto mais importante não será medido pela quantidade de ferramentas utilizadas. O indicador relevante será se o morador consegue resolver problemas com menos etapas, encontrar informações confiáveis e receber atendimento adequado. A experiência já adotada na comunicação da Central 153 mostra que a tecnologia pode cumprir uma função de apoio, enquanto as próximas aplicações deverão definir até onde esse modelo poderá avançar.
Para uma cidade do porte de Guarulhos, essa discussão tende a ficar cada vez mais presente. A inteligência artificial pode ajudar a organizar informações, automatizar tarefas e facilitar o acesso aos serviços, mas também exige regras claras e acompanhamento humano. O caminho mais relevante será aquele em que a tecnologia seja utilizada para resolver problemas concretos do cotidiano, mantendo segurança, transparência e responsabilidade pública no centro das decisões.